Sal

quarta-feira, 1 de junho de 2011



    Foi há 30 anos, no Rio de Janeiro, que Glauber aparou a barba, arranjou o cabelo e deixou crescer as asas e, depois de um episódio de breve, mas definitivo fenecimento corpóreo, decidiu sobrevoar as grandes e as pequenas cidades, burgos, aldeias e lugares. Tocar pessoas, acompanhar cães nos passeios, histéricos atrás das moscas, observou gatos e foi gatos. Troçou das efémeras porque se garantiu eterno.

                Rompeu com aprumados, bem-vestidos, bem-falantes, bem-falados, agarrou indigentes, embalou mulheres grávidas solitárias e cuspiu no FMI. Viu Cristo e deu-lhe um par de tapas, por ele mesmo ter comido toda a areia que lhe cabia no estômago a fingir, para aliviar os sertanejos das vidas secas que levam. Encontrou Deus e fez-lhe uma rasteira rasteira pela distracção quanto aos Sem-Terra. Amparou Tom Zé da queda que iria dar na banheira e afinou o ré do violão de Toquinho. Sentou-se nos ombros do Corcovado, a jogar canasta com Guimarães Rosa. 

                Pediu satisfação a Cristo por Pixote e cada pivete mal-amado, desperdiçado, e recebeu uns quantos vindos direitinhos da Candelária. Tornou-os estros de Caetano e de Gil. Também o foram outrora de Cartola e Noel. Pelos favelados arriou, sussurrando, ciciando, murmurando, segredando, rumorejando que o “morro não tem vez”. Reviveu o tráfico negreiro e a lei Áurea, não pode deixar de achegar os trabalhadores dos grandes latifúndios aos negros da senzala e então bradou-se em lamúria, sangrou e sangrou, deliberou que toda a gente havia de ser livre, porque quem trabalha porque tem fome, tem fome de liberdade e de asas e de ar fresco.

    Infiltrou-se sublimado num edifício gigante. Outrora fora uma construção de uns tantos blocos de betão armado, gradeado num padrão ora grade, ora cimento, ora grade, ora cimento. Agora, eram umas quantas caixas de cartão gigantes, para onde se jogavam homens criminais culpados dos males inteiros do Brasil. Empurrava-se aqui e lá cabia mais um, calcava-se ali e cabia outro pequenito, matavam-se dois para plantar uns cinco. Um dia, as caixas tiveram paredes côncavas e saíam coisas pelas grades e pelas juntas, pertences escassos dos homens ruins do Brasil. Felizmente, as forças policiais das caixas, com nome tupi-guarani, Carandiru, mataram uns quantos. As espumas dos sangues adidos ao éter de Glauber, agravaram o seu pêsame de eternidade em 250 homens.  
   
    Deu palmadinhas de alento e estímulo nas costas de Teotônio Vilela e nas de Tancredo Neves, abriu os braços pela emancipação do povo – Diretas Já! – exigia o PMBD. –Directas Já! Ajoelhou à tornada ao poder civil de ‘85, regozijou-se com a nova constituição federal de ‘88 e pelas directas para a presidência da república de ‘89, cantou hinos celestes saídos directamente do seu coração deveras revolucionário e lastimou fazer tão cedo a grande viagem e a sina de somente assistir a este prenúncio de dignidade dado ao seu povo assalariado, caipira, pescador, gaúcho, cantoneiro, flanelinha, favelado, mal-amado, que diria Jorge?
  
    Desde há 30 anos, que beija todas as faces dos filhos todas as noites e as bocas de todas as mulheres, no beijo impassível de anjo que pode; continua a achar Chico burguês, mas, este, por sorte, continua esquerdista. Empurrou Dilma para o lugar onde ela está e ameaçou, cara-a-cara Médici de ajuste de contas. Amou com violência Tião por o macaco representar a estética da fome e a estética da violência.

     Envergonhou-se de Collor de Mello, Ai Iemanjá! …e o que fez ele ao seu Brasil brasileiro, negro, mestiço, indígena, azul, verde, branco e amarelo, sincrético e depois patético e deflacionado!? Indignou-se com Sarkozy, com Obama, com a NATO, com o petróleo, com o gás natural, com a dívida ao Banco Mundial, rasgou as faces com mágoas de revolta, zanga e ácido porque para haver os que comem, sobra tanta mas tanta gente com fome e para haver quem se calce, existe tanta garotada descalça.
              

 FILHOS DA PUTA – não sobra nada!

 FILHOS DA FRUTA – não lutam por nada!

 FILHOS DA GRUTA – não lhes cabe nada!

Cabe-nos a nós, sobra-nos a nós, temo-lo para nós: O SAL DE GLAUBER.
► Leia mais...

Óbitos: Tony Curtis

quinta-feira, 30 de setembro de 2010



R.I.P.
► Leia mais...

Óbitos: António Feio

sexta-feira, 30 de julho de 2010



E porque não podiamos deixar passar ao lado esta grande perda. R.I.P. António.
► Leia mais...

The good, the bad and the weird.

domingo, 30 de maio de 2010


Este post não é uma review ao filme de 2008 de Ji-woon Kim. É como vejo os três homens de Hollywood que morreram esta semana.

Há que começar por aqui -  peço desculpa por estar a repetir o assunto do post anterior. É como se o Maus da Fita estivesse em stereo, pronto.


The Good - Dennis Hopper 1936 - 2010

Um senhor, claro. Vamos voltar a tê-lo no cinema, no filme The Last Film Festival. Podia divagar acerca do título e adequá-lo a este contexto, mas é tão fácil e despropositado quer não vou fazê-lo (mas deixo anotada a minha intenção), desse filme está no IMBb a lista de personagens, que é mimosa:  Movie Star, Stalker, Stoner, Indie Director, Local Hottie, entre outras. E a sinopse: "The Last Film Festival" is an outrageous and irreverent comedy about what happens when an obscure film festival is the last hope for a failing producer (Dennis Hopper) and his disaster of a movie.
Pode ter sido por acaso, mas acredito que é assim que os grandes Homens nos deixam - com uma piada. 


The Bad - Simon Monjack 1970 -2010

Quem?
Trata-se do argumentista viúvo da Brittany Murphy. Se é ou não The Bad não sei. Quando morreu ela, comentou família e amigos que se deveu aos maus caminhos por que se metera desde que estava com o marido. A morte dela terá sido por pneumonia, a dele por ataque cardíaco. Macabro: foi encontrado morto no mesmo quarto que Brittany Murphy, e pela mesma pessoa (a mãe dela).
Senhores [sobreviventes] de Hollywood, por favor adaptem esta história ao cinema. Como filme de terror. Really!


The Weird - Gary Coleman 1968 - 2010

Por fim, Gary Coleman. Honestamente, quem em Portugal sabe da existência do Gary Coleman, não o sabe por ele ter sido de um talento por aí além. É porque era aquele fulano baixinho, famoso nos EUA, que se candidatou às loucas eleições para governador do estado da Califórnia em 2003.
Não quero com isto dizer que ele não prestava, quero dizer que não sei, e a maior parte dos portugueses não saberá. Quero dizer que a série de maior relevo em que entrou  - Diff'rent Strokes - não nos é familiar (apesar de a sua personagem ter sido retomada num episódio da série The Fresh Prince, o nosso Príncipe de Bel-Air, essa sim extremamente familiar aos da minha geração), e que a sua carreira foi quase 100% televisão, em séries que não foram transimitidas no nosso país. Assim, Gary Coleman que me perdoe, noticio aqui a sua morte não como a de uma figura extremamente marcante, mas como a de um funny guy.
O que seria do mundo sem os funny guys?
► Leia mais...

Óbitos: Dennis Hopper

sábado, 29 de maio de 2010




1936 - 2010

"Born to be wild..."
► Leia mais...

Éric Rohmer: 1920-2010

terça-feira, 12 de janeiro de 2010



R.I.P.

Mesmo quando eu estava a começar a descobrir a sua imensamente rica obra (estou a meio da magnífica caixa dedicada aos Contos Morais editada pela Criterion Collection), recebo esta notícia. Todos os cinéfilos que se prezem estão de luto desde ontem.
► Leia mais...

Brittany Murphy 1977-2009

terça-feira, 22 de dezembro de 2009


Diz-se que a moça tomava demasiado de coisas que fazem mal. De tal forma que o gossipeiro-mor, o Perez, após a morte do Michael Jackson disse que se alguém fosse a seguir pela mesma razão seria a Brittany Murphy. Fazendo uma pesquisa pelas Imagens Google aquilo continua repleto de fotografias nasty dela, apesar de já todos sabermos que a moça morreu depois de um ataque cardíaco no Domingo passado.
Não será tão dramático quanto a morte do Heath Ledger nem tão mediático quanto a morte do referido Jacko. É estranho porque ela era nova - mais ou menos da idade dos Maus da Fita - e porque parece que não chegou a interpretar nenhum papel que fosse à sua medida. Ficamos então com várias meninas - como as de Girl, Interrupted; 8 Mile; Sin City - apenas à medida do seu aspecto. De bonequinha com olhos de moca.


► Leia mais...

Óbitos: Paul Naschy

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009



R.I.P.

Apropriadamente, em noite de lua cheia. Descansa em paz, Jacinto Molina.
► Leia mais...

Óbitos: Patrick Swayze

terça-feira, 15 de setembro de 2009



R. I. P.

De certeza que muita gaja que foi adolescente nos anos 80 vai hoje rever o DIRTY DANCING pela enésima vez em sua memória. Quanto a mim, vou à minha videoteca procurar o TO WONG FOO THANKS FOR EVERYTHING JULIE NEWMAR. Paz à sua alma.
► Leia mais...

Top 3 filmes: John Hughes

quarta-feira, 19 de agosto de 2009


Não acredito que morto seja santo. Por isso mando o meu tau-tau ao além a este senhor por ter iniciado as sagas Beethoven e Home Alone e por se ter envolvido em coisas tão chunguitas como Flubber e 101 Dálmatas. Apesar dos últimos filmes que escreveu não serem grande coisa, também não são assim tão maus e todos os vimos, talvez até mais que uma vez.

Dos seus tempos áureos faço o meu Top 3. Filmes dos 1980s com teens que vi sendo teen e fizeram sentido (mais de 10 anos depois de estrearem) e vejo hoje já não sendo teen e continuam a fazer sentido. Filmes com inteligência, coração e um piadão.

3º: Sixteen Candles (1984)


2º: The Breakfast Club (1985)


1º: Ferris Bueller's Day Off (1986)


Obrigada John Hughes.
► Leia mais...

Video Clips de Realizadores Famosos: Thriller de John Landis para Michael Jackson

sexta-feira, 26 de junho de 2009



R.I.P.

► Leia mais...

RIP João Bénard da Costa

quinta-feira, 21 de maio de 2009



João Bénard da Costa faleceu hoje vítima de cancro. A Cinemateca Portuguesa, sua segunda casa de longa data, emitiu um comunicado homenageando o seu antigo director. No texto pode ler-se:

A Cinemateca Portuguesa-Museu do Cinema comunica com profundo pesar o falecimento do seu Director, Dr. João Bénard da Costa, e apresenta as condolências à sua família.

Membro da direcção desde 1980 e Director desde 1991, João Bénard da Costa confunde-se com a história da Cinemateca e do cinema em Portugal. Intelectual empenhado e activo em revistas e movimentos, historiador, escritor, programador, cinéfilos e não-cinéfilos associavam o seu nome ao cinema, a uma paixão contagiante transmitida em artigos de jornal, folhas de sala, apresentações, conferências e ensaios.

Os filmes da sua vida e o seu filme da vida não se distinguiam, e traziam sempre ecos afectivos, memórias culturais, reflexos dos debates que também viveu. João Bénard da Costa viu muitos filmes, todos os filmes, uma vida inteira de filmes, mas também via sempre filmes que mais ninguém via, porque neles descrevia o que lá estava e não estava, isto é, aquilo que não era aparente e óbvio antes de o lermos nos seus textos.

Foi de uma geração de cinéfilos cineclubistas, e das sessões para estudantes até à Cinemateca, passando pela Fundação Gulbenkian, sempre deu a ver os filmes que amava e os outros também, porque a História do Cinema é inclusiva e não exclusiva. Aprendeu com Henri Langlois, o mítico director da Cinemateca Francesa que conformou aquilo que ainda hoje, em grande medida, entendemos por uma Cinemateca. Ao longo de quase três décadas como Subdirector e depois Director da Cinemateca Portuguesa, nunca abandonou esse credo fundamental de dar a ver e de ensinar como se vê. De descobrir e dar a descobrir.

Terceiro Director da Cinemateca depois de Félix Ribeiro e Luís de Pina, a Cinemateca Portuguesa-Museu do Cinema e os seus funcionários orgulham-se do seu legado e zelarão pela sua memória.

A Cinemateca suspende hoje as suas sessões, retomando a programação normal na segunda-feira.

Amanhã, sexta-feira às 21h30, haverá uma projecção do filme Johnny Guitar.

O corpo de João Bénard da Costa estará na Igreja de S. Sebastião da Pedreira a partir das 18h00 de hoje. Haverá missa de Corpo Presente às 21h00.

Amanhã, 22 de Maio às 14h00 missa e saída para os Olivais.


Deixo-vos com o trailer de JOHNNY GUITAR, um dos seus filmes de eleição.

► Leia mais...

/